Imigrantes menores de idade fazem fila em frente a delegacia de Ceuta para serem registradas REUTERS/Violeta Santos Moura Neste fim de semana, Mohammed quer ir ...
Imigrantes menores de idade fazem fila em frente a delegacia de Ceuta para serem registradas REUTERS/Violeta Santos Moura Neste fim de semana, Mohammed quer ir do Marrocos para o enclave espanhol vizinho de Ceuta, no extremo norte da África. Ele é um marroquino na casa dos vinte anos de idade que quer emigrar para a Europa, principalmente porque tem visto muitos vídeos no Instagram que fazem a travessia parecer fácil. Ele contatou várias contas do Instagram e uma delas respondeu, alegando ter ajudado "muitas pessoas" e oferecendo conselhos sobre como atravessar a fronteira por centenas de dólares. Só que Mohammed não existe de verdade – ele é uma conta falsa que eu criei para investigar uma rede de perfis no Instagram que estão impulsionando o fluxo de migrantes para Ceuta com conteúdo inspirador e oferecendo ajuda mediante pagamento. Isso ocorre depois que aproximadamente 78 mil imigrantes vindos do Marrocos chegaram por mar a Ceuta em questão de horas no mês passado, 100 dos quais morreram, segundo o prefeito de Ceuta. A crise se abrandou desde então, mas gerou tensões entre as nações da União Europeia que partilham fronteiras abertas, bem como críticas ao governo espanhol. A BBC identificou dezenas de perfis no Instagram que disseram que fazer a curta travessia a nado ao redor da cerca da fronteira entre Marrocos e Ceuta é algo seguro e fácil – mas, na realidade, pessoas se afogaram tentando fazer a travessia e optaram por rotas muito mais longas. As contas também mostram erroneamente Ceuta como uma rota viável para a Europa continental. Nossa pesquisa sugere que isso contribuiu para o fluxo migratório, juntamente com outros fatores, como desinformação sobre mudanças na legislação de imigração espanhola e alegações sobre controles fronteiriços frágeis. Crise em Ceuta completa uma semana ainda sem respostas 'Ajuda' Após interagir com os perfis e publicações das contas, a BBC foi adicionada a vários canais e grupos do WhatsApp. Quando perguntei a uma das contas anônimas se poderiam me ajudar a atravessar para Ceuta neste fim de semana, disseram que sim e pediram "5.000 dirhams adiantados" (R$ 2,8 mil) por "informações que me ajudarão a entrar em Ceuta". Eles disseram que já tinham ajudado "muitas pessoas" a atravessar antes e que me dariam informações sobre a tubulação de esgoto que eu poderia usar para chegar ao enclave em segurança. A conta confirmou que muitos outros perfis do Instagram ajudam pessoas a atravessar para Ceuta dessa forma e solicitaram pagamento "via conta bancária" com um serviço específico de transferência de dinheiro. Mas eles não responderam quando perguntei se eu receberia um reembolso caso a travessia não fosse bem-sucedida. Desde então, eles apagaram várias mensagens que enviaram para a conta. Diversas contas no Instagram fazem a travessia parecer fácil Reprodução/BBC Parte da troca de mensagens entre a conta fictícia da BBC e uma das contas, sob pseudônimo, que alega ajudar migrantes marroquinos a chegar a Ceuta. Reprodução/BBC O mesmo perfil que deu esse conselho já havia dito à minha conta real do Instagram, da BBC, que "isso não incentiva a imigração para Ceuta" — uma mensagem que vários outros perfis repetem. E a situação continua: publicações nas redes sociais, ativamente recomendadas pelo algoritmo do Instagram, anunciam mais uma tentativa de travessia neste fim de semana. Isso aumenta o risco de mortes e acirramento das tensões diplomáticas entre Marrocos e Espanha. Vários dos perfis foram removidos do Instagram depois que a BBC entrou em contato com a Meta, proprietária da plataforma. "Temos uma equipe monitorando a situação em Ceuta em tempo real e removendo conteúdo que viola nossas políticas, incluindo conteúdo que oferece, facilita ou busca serviços de tráfico de pessoas", declarou a empresa. Por que a rede é importante Migrantes nadando ao redor da cerca da fronteira Reprodução/BBC Percebi pela primeira vez a enxurrada de conteúdo sobre Ceuta quando vi um vídeo viral mostrando duas mulheres de roupa de mergulho caminhando pela cidade. Embora a publicação original em espanhol buscasse dissuadir migrantes com a legenda "Ceuta não aguenta mais", algumas versões compartilhadas por contas marroquinas e de língua árabe alteraram a legenda ou a cortaram, de modo que o vídeo mostrava apenas as mulheres caminhando livremente. Esta foi apenas uma das centenas de publicações que classificamos como conteúdo "miragem" — ou seja, que pintam um retrato enganoso de um lugar, distinto da realidade. Alguns vídeos mostram grupos de jovens, homens e mulheres, nadando alegremente no mar — embora muitos tenham se afogado ao tentar fazer o mesmo percurso nas últimas semanas. Outros relatos mostram histórias de pessoas que conseguiram chegar a Ceuta e afirmam ter ido para a Espanha ou para a Europa continental, apesar de cerca de 75 mil dos 78 mil recém-chegados terem sido devolvidos a Marrocos pelas autoridades. Havia muitas semelhanças nos perfis que compartilhavam esse tipo de conteúdo. Quase 40 deles tinham variações do termo "Haraga" e incluíam Ceuta em seu nome ou apelido, frequentemente com uma bandeira espanhola como foto de perfil e com os códigos de área de Marrocos e Espanha na descrição. Haraga, em árabe, pode ser traduzido como "aqueles que queimam" e é usado coloquialmente para se referir a migrantes que chegam a um novo local e queimam ou destroem documentos para que não possam ser identificados e deportados de volta para seus países de origem. O histórico dessas contas, juntamente com suas postagens e seguidores, indicava que a maioria era administrada de Marrocos, enquanto algumas possivelmente estavam baseadas na Espanha ou na Itália. Muitas delas já existiam há vários anos, mas o conteúdo sobre Ceuta ganhou mais visibilidade nas últimas semanas. As contas estão manipulando o algoritmo com vídeos que falam sobre como é viver em Ceuta Reproduação/BBC Essas contas conseguiram manipular os algoritmos das principais redes sociais compartilhando conteúdo emotivo e otimista para ganhar mais visibilidade. Fontes internas das maiores empresas de mídia social já me disseram que as postagens que provocam uma reação forte têm maior probabilidade de se tornarem virais. Ao tentar contatar alguns desses perfis usando minha própria conta, alguns deles me direcionaram para os mesmos números de WhatsApp ou endereços de e-mail. Minha conta falsa, Mohammed, era um perfil privado, criado para se parecer com as contas de jovens marroquinos que curtiam e comentavam as postagens que anunciavam travessias. Eu seguia conteúdo relevante, incluindo vários perfis de Haraga, e em pouco tempo meu feed ficou repleto de vídeos e conteúdo incentivando viagens para Ceuta. Parece haver uma tendência mais ampla, em que pessoas que tentam cobrar dinheiro de migrantes por conselhos conseguem facilmente criar perfis e manipular os algoritmos das redes sociais. Embora já existissem grupos no Facebook e contas em outras grandes redes sociais publicando sobre Ceuta, foi no Instagram que encontrei o grupo mais ativo e disseminado de contas interconectadas. O alcance recém-adquirido desses perfis, facilitado pelos algoritmos do Instagram, os expõe a uma gama maior de clientes pagantes. Este é mais um exemplo de como manipular um algoritmo pode gerar danos no mundo real.